De tempos em tempos a vida parece nos convidar a voltar às nossas raízes e a navegar pelo oceano da memória… e quem sabe também para nos auxiliar a compreender um pouco mais de onde podem ter vindo partezinhas/ heranças de nossas forças, sabedorias, medos, crenças e inúmeras perspectivas.
Muitas vezes olhamos para nossos antepassados apenas como nomes em uma árvore genealógica; podemos até saber uma coisa ou outra, mas raramente se para pra mensurar todas as batalhas “invisíveis” que enfrentaram, e também suas conquistas, para que hoje estivéssemos aqui.
Há alguns dias recebi um registro* onde contava fragmentos de jornada do meu bisavô Raul Machado Vieira, e diante de tudo isso me veio inúmeras reflexões (olá Sol, Lua e Mercúrio® em Câncer), e aqui as partilho para quem sabe auxiliar ou inspirar o resgate da própria ancestralidade.
Afinal tod@s nós somos resultado de uma corrente de vida que atravessa centenas de gerações.
Cada escolha, cada renúncia, cada medo, cada coragem, cada sonho vivido antes de nós moldou, de alguma forma, o solo sobre o qual pisamos no hoje.
E quem sabe também seja um convite sutil para que você conheça mais histórias da sua família também… e bora pra história…
Meu biso Raul Machado Vieira nasceu em Florianópolis em 1878, em uma época em que experiências mediúnicas eram frequentemente associadas com loucura, possessão, obsessão ou até mesmo se tornavam motivo de perseguição… mas ele escolheu seguir com fé diante aquilo que compreendia como sua missão. Mesmo após sua partida, seu legado continuou vivo, inspirando seu filho Walter (e meu tio avô) e pessoas que com zelo e coragem também se dedicaram a preservar e dar continuidade ao trabalho que havia iniciado. Foi assim que em 12 de agosto de 1961, foi inaugurada a Casa Espírita Raul Machado, na Costeira, em Florianópolis.
Mas antes de ser ponto de auxílio, foi preciso redescobrir (inúmeras vezes) e sustentar a perseverança e a coragem, consigo e com os seus, mesmo diante dos desafios.
Segundo relatos e conexão, com o passar dos anos, sua mediunidade e sua espiritualidade tornaram-se parte do caminho que escolheu seguir e acreditar, partilhando passes e palavras de ânimo, preparando medicamentos fitoterápicos e acolhendo quem o procurava, desde jovem. Assim tornou-se um farol de auxílio para muitos, mas ao mesmo tempo em que despertava gratidão e possibilitava ‘curas’, também despertava muita resistência diante de sua magia e fé… vieram críticas, perseguições, e inúmeras tentativas de fazê-lo interromper seu trabalho e sua forma de vida….
Mesmo assim, permaneceu fiel àquilo em que acreditava!
Mas mais do que falar sobre mediunidade, sua história me faz refletir sobre algo muito maior, que é a coragem de continuar sendo quem se é, mesmo quando isso não encontra compreensão imediata no mundo ao redor.
Porque talvez um das maiores propósitos de fé não seja convencer alguém de que estamos certos ou de nossas convicções, mas sim permanecer íntegros diante daquilo que sentimos como verdadeiro em nosso coração, e justamente aí podemos tocar e auxiliar quem realmente ressoa e sintoniza com nossas palavras e medicina.
Mas existe outra história ainda mais significativa quando penso na minha ancestralidade materna… A da minha bisavó, Cecília Linhares Vieira, sagitariana nascida em 1908, também em Floripa.
Antes mesmo de conhecer meu bisavô, sua história também já era de superação e coragem. Ainda criança teve um grave problema na perna que a impediu de estudar, e de levar uma vida considerada “normal” para a época. Depois de passar por diferentes médicos, e sem encontrar melhora ao longo dos anos, sua família chegou até o biso Raul em busca de auxílio.
Segundo a história preservada entre nossos familiares, foi durante esse acompanhamento, realizado por meio das ervas, das rezas, dos cuidados que ele oferecia e da fé em comum, que os dois se aproximaram. Com o tempo, meu bisavô, que já era viúvo do primeiro casamento, pediu sua mão em casamento, e juntos expandiram a família. Raul já era pai de nove filhos do primeiro matrimônio, e dessa união com a bisa Cecília, nasceram mais seis, sendo minha querida avó Marly a caçula.
Essa história me faz refletir em muitos âmbitos, mas hoje, partilho outras reflexões por aqui…
Ela estava grávida da minha avó quando perdeu seu marido Raul. E junto com esse luto vieram desafios que raramente aparecem nos registros…
Ela perdeu a moradia para os filhos de Raul (alguns já eram mais velhos que ela), logo perdeu a guarda de dois filhos e precisou reconstruir a vida (com o auxílio de uma enteada, filha do biso Raul, e das Freiras da Divina Providência, que também as acolheram).
Trabalhou como costureira no colégio Coração de Jesus, no centro de Florianópolis (antigamente, até a década de 70, era um internato religioso apenas para meninas) confeccionando os uniformes em troca de alimentação, recursos e educação para as filhas; e assim conseguiu criar minha avó e sua irmã, e na medida do possível, os outros filhos também, até voarem para o mundo.
Infelizmente não tive a oportunidade de conhecê-la. Ainda assim, minha mãe sempre conta que mesmo sem ter aprendido a ler ou escrever, era uma mulher extremamente caprichosa e sábia, mas também muito sozinha. E mesmo cercada pelo carinho de seus filhos e netas, escolheu viver de forma independente, em sua casa em frente ao Instituto Estadual de Educação, em Florianópolis, onde sincronicamente anos mais tarde eu estudei por muitos anos, desde o ensino fundamental.
Sua existência também auxiliou a regar e fortalecer sábias e firmes raízes, que partilhou e nutriu com suas netas, e que reverberam e a reencontram até hoje, com carinho em mim, e honra por nossa ancestralidade.
E enquanto meu bisavô me inspira pela sua coragem de sustentar sua fé e propósito mesmo diante dos julgamentos ou desafios, minha bisavó me inspira pela capacidade, até mesmo silenciosa, de continuar a acreditar que seu caminho de vida teceria possibilidades ainda maiores…
Existe, porém, uma ironia controversa nessa história. Pois depois de uma geração em que a mediunidade foi vivida e sustentada publicamente, veio outra em que ela voltou a ser escondida, ou vista como desequilíbrio e ameaça novamente… O medo também pode atravessar famílias, e principalmente ao sintonizar com semelhante frequência akáshica, pode ser partilhado e registrado de infinitas formas.
Foi na fé católica que minha bisavó (re)encontrou acolhimento para reconstruir o resto de sua vida. Mas, ao mesmo tempo, foi também dentro desse contexto que muitos saberes ancestrais passaram a ser vividos em silêncio, dando lugar ao medo…
Durante séculos, práticas como os benzimentos, uso de ervas e outras formas de cuidado espiritual foram, em diferentes momentos da história, confundidas com feitiçaria, superstição ou bruxaria, despertando receios e desconfiança.
Seguir o que alguém, ou uma instituição dizia não era apenas uma questão de fé, mas também uma necessidade de segurança e sobrevivência.
Em uma terra como Florianópolis, marcada pelos contos e tradições das “bruxas da Ilha”, talvez esconder determinadas experiências, naquela época e contexto, tenha parecido o caminho mais seguro, principalmente para uma mulher viúva com duas crianças de colo e mais quatro na vida, ainda muito jovem.
Assim, aquilo que antes era visto como mediunidade e conexão passou a ser escondido, e foi na crença católica que minha bisavó acreditou ser sua fé. Mas a conexão com o mistério mediúnico seguiu, e foi partilhada em sua linhagem…
Minha mãe ainda era criança quando contava aquilo que via ou sentia, e recebia um conselho imediato da minha bisa: “Mediunidade não se conta. Se contar, perde.”
E talvez tenha sido essa a percepção/ crença que ela encontrou para conciliar sua forma de fé diante da realidade que viveu… Pois principalmente num contexto marcado pelo medo, pelo preconceito e pelas limitações da época, a fé católica representava um espaço de acolhimento, pertencimento e, sobretudo, segurança.
Mesmo assim, eu cresci ouvindo inúmeras histórias sobre as experiências espirituais, mediúnicas e energéticas que nossa família viveu, além de claro, também as vivenciar. Tanto as bençãos, saberes, magias e curas quanto os desafios…
E com o tempo passei a compreender aquele conselho, que por vezes no início da jornada também foi partilhado a mim; cada vez mais por outras perspectivas, e o ressignificar… Questionando:
Quantas partes da minha história começaram a ser escritas muito antes do meu nascimento… e eu passei a chamá-las de verdade?
O que, em mim, nasceu da minha própria experiência… e o que foi aprendido com quem veio antes?
Será que algumas das minhas dificuldades em prosperar, confiar, receber, amar ou ocupar o meu lugar pertencem apenas a mim?
Até que ponto minha relação com o dinheiro fala sobre o presente… e até que ponto ainda conversa com a história da minha família? Quais crenças limitantes posso ressignificar?
Quais medos continuo alimentando… e quais sonhos ainda esperam a minha coragem?
Quais potências também herdei? A fé, a criatividade, a coragem de recomeçar, a capacidade de servir, de empreender, de amar e de continuar acreditando na vida?
O que escolho preservar… e o que pode, enfim, encontrar descanso e se libertar?
E, se eu olhasse para minha ancestralidade não apenas em busca das feridas, mas também dos dons, das virtudes e dos caminhos que ela tornou possíveis… quem eu descobriria que sou?
Deixei essas perguntas para auxiliar a algumas reflexões… Mas talvez seja por isso que, ao meu ver e astrologicamente falando, o Sol em Câncer nos possibilita esse mergulho profundo nas águas ancestrais, iluminando nossas raízes, nossa família, nossas memórias e parte daquilo que sustenta nossa identidade, mesmo que de forma beeem inconsciente.
E com a Lua Nova e Mercúrio retrógrado também nesse primeiro signo do elemento água, somos convidados a revisitar histórias antigas, escutar aquilo que ainda ecoa dentro de nós e, talvez, a silenciar um pouco mais para ouvir melhor, e como minha avó costumava dizer: “Temos dois ouvidos e uma boca, para ouvir mais do que falar!”
Uma frase que muito me faz refletir… afinal, quantos conselhos herdados continuam sendo profundamente sábios e quantos, apesar de terem feito sentido em outro tempo ou em determinadas situações, acabaram se transformando em crenças que praticamos sem que nunca parassemos para questionar o real por quê?
E quanto mais conheço as histórias da minha família (apesar do que sei ser apenas uma pontinha de algo muito maior), menos acredito que ela fale apenas sobre o passado, principalmente quando ainda as vejo vivas; atravessando formas de amar, de acreditar, de educar, de silenciar, de confiar, de recomeçar e até de enxergar o mundo… Ao mesmo tempo, também me faz perceber que nenhuma herança é feita apenas de dores ou de limitações. Herdamos, igualmente, coragem, criatividade, sensibilidade, fé, sabedoria, curiosidade e uma capacidade quase inexplicável de continuar florescendo, mesmo depois dos invernos mais rigorosos.
E talvez seja justamente esse o convite da ancestralidade, o de compreender que nossas raízes não dizem somente ao que partilhamos diante daqueles que vieram antes de nós. Elas também se fortalecem (ou se transformam) em nossa primeira infância, nas relações que construímos, nas palavras que escutamos, nos exemplos que observamos e em todas as pessoas que, de alguma forma, participam e já participaram da nossa formação.
Assim como crenças limitantes podem ser reforçadas ao longo da vida, também podem florescer novas formas de enxergar a realidade, inspiradas por encontros, vínculos, conhecimento, afetos e coragem.
Afinal, somos constantemente atravessados pelas histórias que vivemos, mas, principalmente, pelas pessoas que escolhemos para caminhar ao nosso lado, a começar por nós mesm@s. Toda forma de viver também deixa sementes e, consciente ou inconscientemente, elas florescem na vida daqueles que passam por nosso caminho, encontram inspiração em nossa trajetória ou (re)descobrem, por meio dela, a coragem de escrever novos capítulos da própria história.
E talvez por isso, olhar para a ancestralidade não significa escolher entre o que foi bom ou ruim, mas justamente olhar para tudo isso com verdade (e curiosidade) o suficiente para compreender o contexto em que, e como, algumas experiências pode ter nascido e sido registradas em nós (no próprio ritmo e compreensão), e como reverberamos a isso.
Algumas crenças fizeram sentido porque um dia protegeram alguém, e alguns medos que hoje, até mesmo de forma inconsciente nos paralisam, talvez tenham sido justamente aquilo que permitiu que uma futura geração sobrevivesse, ou que levou ao fim de alguma outra geração… da mesma forma que alguns sonhos só puderam existir no hoje porque alguém antes de nós teve coragem de abrir os primeiros caminhos, e continuam vivos porque outras pessoas, ao longo da nossa caminhada, nos ajudaram a acreditar que eles eram, e são, possíveis também!
E talvez esse seja um ótimo momento para escutar com mais atenção a própria história, e conversar com quem ainda pode contá-la… revisitar fotografias, cartas, objetos, receitas, memórias e até, quem sabe, compreender os silêncios ao longo do tempo. Mas para principalmente, voltar o olhar para si e para a forma como tem vivido, sentido, amado, escolhido, acreditado e atravessado os próprios sonhos, verdades e ciclos.
Afinal, o autoconhecimento e a conexão com nossa ancestralidade não acontecem apenas quando descobrimos de onde viemos ou quem foram nossos antepassados, mas também quando reconhecemos, com honestidade, quem estamos nos tornando, limitando, transformando ou inspirando dentro (e fora) da gente, a partir dessas heranças & histórias! ✨🌷
Abaixo partilho o registro de meu biso, na casa espirita Raul Machado e também um registro de minha bisa Cecília 💚🌹❤️.*










